15º SBSBLLeucose e tripanossomose exigem atenção redobrada no manejo dos rebanhos

Especialistas colocaram em debate nesta quarta-feira (7), no segundo dia do 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), desafios sanitários que afetam diretamente a produtividade e a rentabilidade da pecuária leiteira. Estratégias para o controle da leucose enzoótica bovina e a tripanossomose são fundamentais para preservar a saúde dos rebanhos e evitar perdas econômicas aos produtores.
A leucose enzoótica é uma doença que afeta a bovinocultura em todo o mundo, apenas alguns países da Europa conseguiram erradicá-la. Nos Estados Unidos, a incidência em rebanhos é em torno de 90%, chegando a 40% de vacas positivadas. No Brasil não há um diagnóstico nacional consolidado que permita dimensionar a situação de todo o território, mas a doença é amplamente difundida, com frequência alta em rebanhos.
Segundo o doutor em Ciência Animal, Elias Facury Filho, a leucose deve ser compreendida como uma doença subclínica, caracterizada por alta morbidade, porém baixa mortalidade diretamente atribuída à enfermidade. “É como um iceberg, pois os animais apresentam um quadro clínico que está visível, enquanto a perda econômica permanece ‘abaixo da água’, e tende a ser significativa", compara o professor.
A infecção pode provocar imunossupressão nos animais. Como o vírus infecta os linfócitos, células fundamentais do sistema imunológico, os animais contaminados podem apresentar menor capacidade de resposta à produção de anticorpos. O especialista ressaltou que vacas aleucêmicas têm pequeno risco de transmissão, já animais com linfocitose têm risco aumentado de transmissão.
Entre os impactos estão a redução da produção de leite, piora dos índices reprodutivos e menor resposta imunológica. “O produtor ou mesmo o técnico muitas vezes não está vendo essa perda”, destacou.
O principal fator de transmissão da doença é por meio da passagem de sangue de um animal infectado para outro. Por isso, práticas de manejo são essenciais para evitar a disseminação da doença dentro da propriedade.
Um dos principais cuidados apontados é evitar o compartilhamento de agulhas. Materiais utilizados para a vacinação e aplicação de medicamentos devem ser individuais para cada animal. O cuidado é necessário, porque o uso de uma mesma agulha em diferentes bovinos pode transportar sangue contaminado e favorecer a transmissão.
Outras práticas de manejo também exigem atenção. O colostro utilizado na alimentação dos bezerros deve ser proveniente de vacas negativas para a doença. O leite também pode ser uma fonte de transmissão, sendo recomendada a utilização de leite pasteurizado para a alimentação dos bezerros.
As luvas utilizadas em procedimentos veterinários são outro ponto de atenção. Na palpação de várias vacas, por exemplo, o uso da mesma luva pode transportar resíduos de sangue de um animal para outro. A recomendação é utilizar luvas individuais.
De acordo com o especialista, o controle da leucose depende principalmente de mudanças nos procedimentos cotidianos da propriedade. “São pequenas ações que, na verdade, são ações muito mais de modificação cultural”, explicou.
TRIPANOSSOMOSE BOVINA
A tripanossomose bovina é uma doença parasitária complexa, de difícil identificação e com sintomas que podem ser confundidos com outras enfermidades. Tem alta prevalência nos rebanhos brasileiros, com impactos produtivos, reprodutivos e econômicos significativos nas propriedades. O tema foi abordado pelo médico veterinário Alexandre de Souza, que trouxe experiências de campo para identificar e controlar essa doença.
De acordo com o doutor em reprodução, os sinais clínicos são considerados inespecíficos e variam de acordo com a fase da doença. Neste sentido, é crucial diferenciar os quadros agudos dos crônicos para escolher adequadamente as estratégias de diagnóstico e tratamento.
Na fase aguda, existe a possibilidade de utilizar métodos de diagnóstico direto, que, na visão do especialista, apresentam acurácia razoavelmente boa. No entanto, numa fase crônica, que é a mais comum no Brasil, o agente causador pode não ser encontrado nos testes diretos, que ainda é uma estratégia muito adotada no campo. Nessa situação, o parasita pode não ser encontrado, o que leva à falsa impressão de que o rebanho está livre da doença. Por isso, é preciso fazer outros testes. “Independentemente de testes, a clínica é soberana nesse caso", ressaltou.
Em relação aos sintomas, na forma aguda os animais podem apresentar sinais como depressão, apatia, dificuldade para caminhar, perda de peso rápida e progressiva e incapacidade de permanecer em pé, podendo evoluir para a morte. Também pode ocorrer uma queda acentuada na produção de leite, chegando, em alguns casos, a uma redução de aproximadamente 70% de um dia para o outro.
Já na forma crônica, os impactos podem ser mais silenciosos. O rebanho pode entrar em um equilíbrio endêmico, mas apresentar redução de aproximadamente 10% a 15% na produção. Alterações oculares, diarreias esporádicas, aumento dos linfonodos, abortos e problemas respiratórios em bezerros também podem estar associados à enfermidade.
A dificuldade de um diagnóstico preciso está justamente na falta de especificidade desses sinais. Alterações oculares, por exemplo, podem ser confundidas com ceratoconjuntivite. Diarreias esporádicas podem ser confundidas com deslocamento de abomaso. Assim como outros sintomas podem ser atribuídos a problemas respiratórios e outras comorbidades que, na verdade, estão sendo alavancados pelo tripanossoma.
Na avaliação de Alexandre, embora alguns produtores e até pesquisadores considerem que o rebanho pode conviver com a enfermidade, situações de estresse podem provocar aumento da parasitemia e desencadear perdas expressivas.
Mudanças na alimentação, troca de silo, ondas de frio e exposição a micotoxinas são exemplos de situações capazes de comprometer ainda mais a resposta dos animais e favorecer o agravamento dos quadros.
Um dos reflexos pode ser observado quando o rebanho não alcança o potencial produtivo esperado. Mesmo após o nutricionista formular uma dieta para determinada produção, os animais podem permanecer abaixo da expectativa.
Os prejuízos provocados pela doença não se limitam à queda na produção. A tripanossomose compromete o sistema imunológico dos animais, reduzindo a capacidade de resposta às vacinas e aumentando a ocorrência de outras enfermidades. Nos bezerros, problemas respiratórios e outras comorbidades podem aparecer como consequência da baixa imunidade.
A reprodução também é afetada, tornando mais difícil alcançar bons índices reprodutivos. A taxa de concepção cai nos casos de incidência da tripanossomose, com índices altos de falhas reprodutivas e descartes involuntários. Na produção de leite, a queda pode ser de até 68%. Em decorrência dessas perdas, o impacto financeiro pode ser expressivo. “Temos uma estimativa de perda de valor do rebanho como negócio na ordem de 30%", afirmou.
O tratamento e controle da doença no campo passa por um conjunto de ações, com destaque para o uso do cloreto de isometamídio e do aceturato de diminazeno. A conduta técnica nas propriedades também é fator importante e deve atuar na coleta de amostras sempre antes do tratamento, bem como tratar apenas os animais clinicamente ativos, em vez de aplicar medicamentos massivamente às cegas.
O primeiro passo para controlar a tripanossomose dentro de uma propriedade é o posicionamento do próprio produtor. “A maior dificuldade, muitas vezes, está na cabeça do dono da fazenda. Ele precisa decidir como vai lidar com essa doença e estabelecer estratégias de controle, assim como faz para reprodução, mastite ou outros problemas sanitários. Algumas práticas importantes são abolir o reuso de seringas, usar luvas novas para apalpação ou uma solução com água e 1% de iodo para higienização, rever o uso da ocitocina com a equipe, criar uma quarentena rigorosa para os casos diagnosticados com a doença, além do controle assertivo de moscas", finalizou.
Fonte: MB Comunicação
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