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A repercussão do Plano Safra 2026/2027

  • 13 de jul.
  • 3 min de leitura

Por Ivan Ramos


Como era de se esperar, o Plano Safra 2026/27, anunciado recentemente pelo Governo Federal, gerou diferentes interpretações. Principal instrumento de crédito e fomento para a agropecuária empresarial, válido de 1º de julho de 2026 a 30 de junho de 2027, o programa contará com R$ 525,1 bilhões, um acréscimo de R$ 9 bilhões em relação ao ano anterior.


Numericamente, o aumento foi de aproximadamente 1,7%. No entanto, considerando uma inflação próxima de 5% no período, o crescimento real dos recursos ficou abaixo da inflação. Mas, como destacam a maioria das entidades representativas do setor, esse talvez nem seja o principal ponto.


O agricultor já conhece esse roteiro. Na apresentação do Plano Safra, os números ganham grande destaque e repercussão. Porém, na prática, nem sempre os recursos anunciados chegam integralmente ao campo. São diversos os fatores que acabam dificultando ou impedindo a efetiva liberação do crédito.


O exemplo da safra passada é bastante ilustrativo. Na ocasião, foram anunciados R$ 516,2 bilhões, mas, ao final do ciclo, apenas cerca de R$ 433 bilhões haviam sido efetivamente contratados. Os obstáculos para acesso ao crédito foram inúmeros. O governo divulga os valores, os aliados comemoram os anúncios, mas a realidade enfrentada pelo produtor costuma ser diferente. Tudo indica que neste ano o cenário poderá se repetir.


No que se refere às taxas de juros, houve alguma redução, o que representa um avanço. Entretanto, permanece a preocupação quanto à disponibilidade desses recursos. Tradicionalmente, as linhas com juros equalizados se esgotam rapidamente e muitos produtores acabam recorrendo às linhas de mercado, cujas taxas são muito mais elevadas e, muitas vezes, incompatíveis com a rentabilidade da atividade agropecuária.


Mesmo com essa redução, os juros ainda são considerados elevados para um setor que convive permanentemente com riscos climáticos, oscilações de mercado e fatores externos que afetam diretamente a renda do produtor.


Em um país em que o agronegócio representa um dos principais motores da economia, o Plano Safra deveria ser tratado como uma política de Estado, e não como um favor governamental.


A agricultura familiar recebeu avanços importantes neste ano, o que merece reconhecimento. O pequeno produtor enfrenta maiores dificuldades de acesso ao crédito e exerce papel fundamental na produção de alimentos e na permanência das famílias no campo.


Entretanto, continua sendo questionada a existência de dois modelos distintos de política agrícola no país, conduzidos por ministérios diferentes. Na prática, essa estrutura acabou criando tratamentos diferenciados entre agricultores familiares e produtores médios e grandes, alimentando uma divisão que não existe na produção de alimentos. Trata-se de uma construção política e administrativa, e não de uma distinção feita pelos próprios agricultores.


Os dois Planos Safra anunciados apresentam avanços e limitações. Na avaliação de grande parte das entidades representativas do setor, ainda ficaram aquém das necessidades da agropecuária brasileira.


Há, porém, dois temas que praticamente unem pequenos, médios e grandes produtores: o endividamento rural e o seguro agrícola. Enquanto não houver uma solução consistente para as dívidas acumuladas pelos agricultores, qualquer plano de crédito terá sua eficácia reduzida. Da mesma forma, sem recursos suficientes para o seguro rural, o setor continuará vulnerável às perdas provocadas pelos eventos climáticos, especialmente diante das previsões de novas adversidades para as próximas safras.


Está na hora de o Governo Federal e o Congresso Nacional enfrentarem essas questões de forma definitiva. Caso contrário, os problemas tendem a se agravar e poderão comprometer ainda mais a capacidade de investimento e produção da agropecuária brasileira.


Fonte: Fecoagro

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